quarta-feira, 14 de julho de 2010

Noite de concreto

Na madrugada. De ruas geladas. Ventos cortantes. Pessoas errantes. Tempos distantes. Você e eu. Naquele mar de concreto. Apenas seu amor e o meu. Procuramos um teto. Algo que nos deixe a sós. Guardamos as marcas nos bolsos. Tentamos não virar pó. Ah, como me perco no coração daquela menina. A tentativa vã de viver depois. Cruzar novamente aquela esquina. À luz da nossa soma. Dois.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Novo cd da Cartolas

http://tramavirtual.uol.com.br/musica/playlist/dynamic/disco/55394

Sem começo e sem fim

Não vou escrever sobre nós. Porque ainda não vivemos o que realmente queremos. Vou escrever sobre duas pessoas que têm vontade de estar juntas. Duas pessoas muito parecidas na essência, no pensamento, nos gostos. Duas pessoas ligadas por um afeto maior do que elas mesmas. Duas pessoas que não são irracionais, mas que se pudessem seriam movidas por emoções, sensações. Ambas estão longe fisicamente, mas lado a lado no coração. Elas não conhecem os defeitos uma da outra, mas os assumiriam porque sabem que isso as tornaria mais humanas, menos irreais. Essas duas pessoas não gostam só daquilo que é passível de fazer sentido; elas também viajam, e viajam juntas. Não são loucas, não totalmente; a não ser uma pela outra. Uma delas, a do lado de cá, sabe que mesmo moderno demais seu contato com a do lado de lá representa muito mais do que outros que já tivera em carne. A do lado de lá, porém, é tão sensível quando a outra, embora goste de ressaltar a sensibilidade da de cá. Esta está para aquela como o amor está para os que desejam amar. Embora a circunstância ainda não tenha lhes permitido viver o que querem, as duas não abrem mão de, pelos uma vez, confirmar tudo aquilo que dizem. Têm medo, no entanto, de que, expostas às suas vontades, elas sejam feitas uma para outra. O receio é normal para ambas. Afinal, vivem em situações antagônicas do ponto de vista territorial e, inclusive, a do lado de lá, vive uma história na qual se sente com os pés no chão, embora escorregue muitas vezes. A do lado de cá também tem uma situação quase parecida. Vai deixar pra trás a saudade. Mas o fará pensando que a do lado de lá um dia lhe dará – porque é o que esta quer – tudo que sempre quis: amor, afeto, carinho, cumplicidade, respeito, companheirismo, amizade e alguma dose de humor e indiferença. Esta sabe, no entanto, que aquela também o quer, também o deseja, no corpo e na mente. Falta-lhes, entretanto, a possibilidade de poder imprimir um no outro aquilo que tanto escrevem: na pele, na boca, no cheiro, no gosto, por dentro, por fora, por todos os cantos. Um dia, quem sabe, depois de conseguirem ficar juntos vão querer olhar um pouco pra trás e se confidenciar o que realmente sentiam quando pensavam que talvez nunca tivessem um ao outro.

domingo, 11 de julho de 2010

Dois

A nossa história começou assim. Tinha jeito de passageiro de estação, sempre a esperar pelo próximo trem. A nossa história ainda será contada. Mas ela já daria um livro. As poesias que ainda nem escrevi parecem que sempre foram feitas pra você. As páginas só permanecem pálidas porque todavia a cultivo na memória. A sua água vem da minha boca; a sua terra, das minhas palavras. Só irei escrevê-la quando achar que devo. Nosso tempo é de outro tempo. A cumplicidade de quem se parece. Dois seres que querem ser apenas dois. A união nos faria infelizes. Basta sermos dois. Precisamos ser um par. O encontro e o desencontro só acontecem com duas vidas. Meio não sobrevive; nem o meu nem o seu. Quero-a, sim. Mas o que estiver disposta a me dar. Não vou sugá-la toda de uma vez, não tem graça. Preciso de suas doses homeopáticas; pingá-la em mim. Não temos de contar nossos segredos mais íntimos; quem sabe os deixamos guardados; afinal, se são o que são que fiquem como são . O que é secreto lhe pertence. Assim como a mim. Só quero o que não tem medo nem receio de ser desvendado. O escracho, o escancarado, o infiel. Mas também o doce, o veneno, a verve. O riso, a ironia, o deboche. O lado negro, o olhar do avesso, um pouco de falsidade. O mau humor, o temperamento forte, as rugas. O sorriso meigo, o cheiro gostoso, o jeito seu. Todas as faces. Caras e bocas. Repito: nunca esqueça do conta-gotas. Dai-me em pingos. As nossas coisas belas ganham proporção quando se encontram. O inverso é o mesmo. A fúria também é semelhante. Continuemos dois. Uma dupla imperfeita a tentar ser mais imperfeita ainda. A confusão pra outros olhares. A emoção para estes olhares. Trate de nem sempre me fazer feliz. Olha o conta-gotas. É no sofrimento, na sua indiferença que a vejo por completa, dentro e fora, beleza e feiúra. Pode mentir pra mim, mas nunca me engane totalmente. Brinque comigo, jogue comigo, mas só me deixe ganhar quando isso a fizer feliz. Nunca por pena ou compaixão. Seu agradecimento só desejo por educação. Talvez esteja a lhe pedir demais. Pressinto que és assim, linda. Por isso a quero sempre mais sua do que minha. E mesmo que a nossa história seja curta, ela sempre será uma historia e sempre será nossa, de mais ninguém.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A copa da África do Sul

A copa da África do Sul é a copa do sonho de um povo sofrido, pobre, lutador.


A copa da África do Sul é a copa do Mandela e de todos aqueles guerreiros que, com armas ou sem, defenderam seus ideias de liberdade e justiça social.

A copa da África do Sul é a copa verde-amarela, a canarinha e a dos bafana-bafana.

A copa da África do Sul é a copa do simbolismo.

Mas a copa da África do Sul é, claro, a consagração do maior esporte de massas do mundo, o futebol.

A copa da África do Sul é a copa da volta por cima.

Mas a copa da África do Sul também é a oportunidade em que os olhos do mundo estarão voltados 24h por dia a quem sempre foi esquecido pelo resto do tempo: o povo negro.

Aos olhos fortes e vivos dos sul-africanos, a copa da África do Sul é a realização de algo quase ou tão importante quanto a luta contra o aparthaide.

No semblante de cada cidadão sul-africano, a copa da África do Sul representa alguns segundos a menos a pensar que seu pai, sua filha, seu irmão, deverão morrer ou já morreram por conta da AIDS.

No sorriso de cada sul-africano, a copa da África do Sul é a esperança de que, durante um mês, os conflitos religiosos, etnicos ou, sobretudo, os pela corrida das armas sejam postos de lado.

Na dança malemolente de cada sul-africano, a copa da África do Sul é a lembrança de que os povos, quando se unem pela mesma causa, sempre fazem imperar a paz.

No drible, semelhante ao nosso, dos sul-africanos, aquele sapeca, faceiro, ligeiro, a vontade de, ao menos desta vez, chegar à final da copa dentro de seu quintal.

Na curiosidade esperta das crianças sul-africanas, a copa da África do Sul é, como o é para as brasileiras, a perspectiva e o sonho de um futuro melhor fora da miséria, da pobreza absoluta, da marginalidade ou da guerra, cada qual com sua particularidade mas ligadas entre si.

Por último, mas tomara que nunca por fim, na consciência de cada sul-africano a copa da África do Sul guardará vivo em sua memória o sentimento de que, durante ao menos um mês, a população mais invisível do mundo teve no esporte mais popular a felicidade que deixará como legado a todos seus irmãos da terra. E sem distinção de cor.
Pra quem não tem twitter e, portanto, não pode ler meus pensamentos e frases, vou colocando alguns que julgar intessantes.

"Recôndita história em que meu apreço me dói, por ser infinitamente maior do que meu amor."
"Preciso tramar algo com os grãos de milho, quem sabe me ajudam a criar um rastro seu."
"A distância só diminui a tristeza quando vem acompanhada de sua presença."
"Saber se virar no inverno é lavar a louça no banho."
"As melhores estações do ano sempre são aquelas pelas quais não estamos passando."
"Aquele olhar, o voo fugaz dos cílios; a insinuação rápida e provocante. Um segundo e dá pra perceber pela irís a intenção do corpo resoluto."
"Tesão é quando a gente esquece de tirar a meia e não é cobrado por isso."
"Se um dia enfim eu puder vê-la que seja como as lembranças do que nunca vivemos."
"Prefiro a certeza eterna do teu corpo em minha mente do que a sua simples confirmação em minhas mãos."
"Meia-noite. Outra noite. O frio. Sem a lua. Tudo escuro. Solidão. Hoje sem rosto. Aquele corpo de nunca. Sem juízo. Sem nada. Outra vez."
"Dor é saber que o que mais se quer é a única coisa que não se poderá ter."
"Contento-me em saber que palavras sinceras - e apenas elas e em raros momentos - podem demonstrar o que uma vida inteira talvez não possa."
"Toda vez que vejo seu rosto gostaria de esquecer que sempre será apenas um rosto."
"Sinto que tudo acabou qdo não tenho coragem de buscar aquela camisa que deixei em sua casa e você, gentilmente, a devolve num saco de super."
"Um coração sem amor só poderia bater com a ajuda de aparelhos."
"Vivi demais com a sua ausência que quando a tive senti saudade."
"Um romântico digital não bloqueia o amor impossível. Ele se exclui pra não vê-la nunca mais."
"Talvez não quisesse viver o que não podemos. A possibilidade, quem sabe, pode ser mais interessante."
"Sempre é mais forte tudo aquilo que se sabe não passará de um sonho bom."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Assim somos

Parece não haver sentido quando não a tenho por perto. Acabei de furtar um coração. Levaste o meu também. Não gosto dessa troca. Prefiro um pouco do teu aqui dentro de mim. Às vezes penso existir um mundo a nos separar. Uma distânica intransponível. Longe e perto. Confusão absoluta. Sentimento sem toque. Carinho sem afago. Amor estranho. Cheio de dúvidas e nenhuma certeza. Alías, talvez a certeza de que está por aí. Vaga como o pólem daquela flor que nunca lhe dei. A totalidade de uma presença abstrata. Sensação que esmaga, tritura, fere. Quer chorar mas não têm lágrimas. Quer sentir mas só o corpo se expressa. Minhas palavras são dóceis e molham a sua boca. Tornei-me um amante às avessas. Romântico ludibriado por um semblante alvissareiro. A gente ri, mas sente que chora. As defesas são mais fortes que os ataques. Pensamos ser resquicios de um passado não acontecido. Um presente forte. Uma ligação de sangue sem pacto. Um amor que quer mas não tem força. Receio o futuro; de não vivê-lo como agora. Poderia esperar. Afinal, os anos virão. Tomara que não me castigem, não me façam sobreviver em vão. Contentarei-me com as noticias da sua felicidade. Torcerei para que seja somente um escape. Não falso, mas não tão verdadeiro como nós. Isso chama-se encontrar. E independe do momento. Um acaso gostoso e triste. Sincero e intranquilo. Vivo mas em falência. Assim somos. Você e eu.