terça-feira, 10 de agosto de 2010
Olhares
Os olhares fitam-se. Viram um espelho. Cada qual enxerga-se profundamente pela íris. Nenhuma fotografia teria como reproduzir o terno momento. As máscaras caem naturalmente. Não há muralhas que se sobreponham à lividez do olhar sensato. Os rostos deixam de existir. A única curva é a dos olhos. Quatro deles. Todos outros membros tornam-se inferiores. O silêncio não incomoda. Palavras seriam erros; as faladas. Interação de desejos por meio de globos que brilham. Começam a ficar umedecidos. Pingam, agora. Choram. Piscam. Unem-se. Fecham-se.
Metade
Metade de mim é meu
A maçã não simboliza nada
Pequeno resto do todo é seu
Vida alheia e mal fadada
Choro mais que choroso
Sensação de leito de morte
Corpo sempre sestroso
Nunca se engana no corte
Abundância da carne pálida
Sórdido encontro vazio
Putrefata e fálica
Ninguém mais o viu
Despediu-se de antemão
Enrolado ao reles terninho
Restou-lhe apenas senão
Um metro quadrado sozinho
A maçã não simboliza nada
Pequeno resto do todo é seu
Vida alheia e mal fadada
Choro mais que choroso
Sensação de leito de morte
Corpo sempre sestroso
Nunca se engana no corte
Abundância da carne pálida
Sórdido encontro vazio
Putrefata e fálica
Ninguém mais o viu
Despediu-se de antemão
Enrolado ao reles terninho
Restou-lhe apenas senão
Um metro quadrado sozinho
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Madrugada saudosa
Madrugada cálida. Janela aberta. Os únicos sons vêm de rodas que teimam em queimar o asfalto negro como a noite. As luzes são amarelas alaranjadas. O trem que cruza a cada meia hora corta o silêncio dos pássaros dorminhocos; os poucos que devem dormir por aqui. O sono aparentemente consome a vizinhança, que parece fazer companhia à parte mais velha da cidade. O novo está pra outros lados, bem longe dessas bandas. O céu é o mesmo de sempre. Algumas estrelas apenas piscam; tentam provar que estão vivas. Duas pessoas aparentando meia-idade caminham. Passos tétricos as levam devagar. Não se sabe se cansadas pela idade ou pela noite que as consumiu. Talvez queiram juntas ver o sol nascer daqui a pouco. É possível ouvir o barulho dos sapatos. Nem um cachorro os acompanha. Uma sincronia típica dos bailarinos. Vão ficando mais distantes. Não é mais possível vê-los. Pelo som, um portão enferrujado é aberto. Ouvem-se sussurros. Silencio. Sussurros. Uma porta se fecha. Os passos retornam. Mais fracos. O som dos pés tocando a calçada não tem mais ritmo. A dança deve ter chegado ao seu fim. A única pessoa que volta, um homem, parece cavalheiro. Deixa a amada em casa e agora deve ir pra casa sonhar. Paixão à antiga, daquelas que não se veem mais. O samba que cantarola também: “Saudosa maloca, maloca querida”.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Noite de concreto
Na madrugada. De ruas geladas. Ventos cortantes. Pessoas errantes. Tempos distantes. Você e eu. Naquele mar de concreto. Apenas seu amor e o meu. Procuramos um teto. Algo que nos deixe a sós. Guardamos as marcas nos bolsos. Tentamos não virar pó. Ah, como me perco no coração daquela menina. A tentativa vã de viver depois. Cruzar novamente aquela esquina. À luz da nossa soma. Dois.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Sem começo e sem fim
Não vou escrever sobre nós. Porque ainda não vivemos o que realmente queremos. Vou escrever sobre duas pessoas que têm vontade de estar juntas. Duas pessoas muito parecidas na essência, no pensamento, nos gostos. Duas pessoas ligadas por um afeto maior do que elas mesmas. Duas pessoas que não são irracionais, mas que se pudessem seriam movidas por emoções, sensações. Ambas estão longe fisicamente, mas lado a lado no coração. Elas não conhecem os defeitos uma da outra, mas os assumiriam porque sabem que isso as tornaria mais humanas, menos irreais. Essas duas pessoas não gostam só daquilo que é passível de fazer sentido; elas também viajam, e viajam juntas. Não são loucas, não totalmente; a não ser uma pela outra. Uma delas, a do lado de cá, sabe que mesmo moderno demais seu contato com a do lado de lá representa muito mais do que outros que já tivera em carne. A do lado de lá, porém, é tão sensível quando a outra, embora goste de ressaltar a sensibilidade da de cá. Esta está para aquela como o amor está para os que desejam amar. Embora a circunstância ainda não tenha lhes permitido viver o que querem, as duas não abrem mão de, pelos uma vez, confirmar tudo aquilo que dizem. Têm medo, no entanto, de que, expostas às suas vontades, elas sejam feitas uma para outra. O receio é normal para ambas. Afinal, vivem em situações antagônicas do ponto de vista territorial e, inclusive, a do lado de lá, vive uma história na qual se sente com os pés no chão, embora escorregue muitas vezes. A do lado de cá também tem uma situação quase parecida. Vai deixar pra trás a saudade. Mas o fará pensando que a do lado de lá um dia lhe dará – porque é o que esta quer – tudo que sempre quis: amor, afeto, carinho, cumplicidade, respeito, companheirismo, amizade e alguma dose de humor e indiferença. Esta sabe, no entanto, que aquela também o quer, também o deseja, no corpo e na mente. Falta-lhes, entretanto, a possibilidade de poder imprimir um no outro aquilo que tanto escrevem: na pele, na boca, no cheiro, no gosto, por dentro, por fora, por todos os cantos. Um dia, quem sabe, depois de conseguirem ficar juntos vão querer olhar um pouco pra trás e se confidenciar o que realmente sentiam quando pensavam que talvez nunca tivessem um ao outro.
domingo, 11 de julho de 2010
Dois
A nossa história começou assim. Tinha jeito de passageiro de estação, sempre a esperar pelo próximo trem. A nossa história ainda será contada. Mas ela já daria um livro. As poesias que ainda nem escrevi parecem que sempre foram feitas pra você. As páginas só permanecem pálidas porque todavia a cultivo na memória. A sua água vem da minha boca; a sua terra, das minhas palavras. Só irei escrevê-la quando achar que devo. Nosso tempo é de outro tempo. A cumplicidade de quem se parece. Dois seres que querem ser apenas dois. A união nos faria infelizes. Basta sermos dois. Precisamos ser um par. O encontro e o desencontro só acontecem com duas vidas. Meio não sobrevive; nem o meu nem o seu. Quero-a, sim. Mas o que estiver disposta a me dar. Não vou sugá-la toda de uma vez, não tem graça. Preciso de suas doses homeopáticas; pingá-la em mim. Não temos de contar nossos segredos mais íntimos; quem sabe os deixamos guardados; afinal, se são o que são que fiquem como são . O que é secreto lhe pertence. Assim como a mim. Só quero o que não tem medo nem receio de ser desvendado. O escracho, o escancarado, o infiel. Mas também o doce, o veneno, a verve. O riso, a ironia, o deboche. O lado negro, o olhar do avesso, um pouco de falsidade. O mau humor, o temperamento forte, as rugas. O sorriso meigo, o cheiro gostoso, o jeito seu. Todas as faces. Caras e bocas. Repito: nunca esqueça do conta-gotas. Dai-me em pingos. As nossas coisas belas ganham proporção quando se encontram. O inverso é o mesmo. A fúria também é semelhante. Continuemos dois. Uma dupla imperfeita a tentar ser mais imperfeita ainda. A confusão pra outros olhares. A emoção para estes olhares. Trate de nem sempre me fazer feliz. Olha o conta-gotas. É no sofrimento, na sua indiferença que a vejo por completa, dentro e fora, beleza e feiúra. Pode mentir pra mim, mas nunca me engane totalmente. Brinque comigo, jogue comigo, mas só me deixe ganhar quando isso a fizer feliz. Nunca por pena ou compaixão. Seu agradecimento só desejo por educação. Talvez esteja a lhe pedir demais. Pressinto que és assim, linda. Por isso a quero sempre mais sua do que minha. E mesmo que a nossa história seja curta, ela sempre será uma historia e sempre será nossa, de mais ninguém.
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