Estou inseguro. Estou a me procurar todos os dias em frente ao espelho. Meu reflexo já não me satisfaz mais. Tenho uma cara cálida e branca. Uma face antagônica. Estou perdido. Não quero saber onde estou e nem o que sou. Tenho medo de achar alguém que talvez já tenha sido alguma vez. Coisas iguais.
O novo me atrai. Vou me cortar em pedaços. Quem sabe assim faça uma nova identidade. Quem sabe assim minha foto não reflita a mesma imagem do espelho de ontem. Vou comprar um espelho novo; vou pintá-lo de preto.
Preciso de um abajur a meia luz. Uma fotografia com tons felinianos. Meus cabelos castanhos em forma de contorno. Teu corpo reluzente a encontrar minha silhueta forte e rígida. Teu sexo úmido a esfregar-se em minha coxa.
Somos dois humanos do acaso. Momentos sem obrigação de se repetir. Amor em seu menor formato. Como as migalhas espalhadas do meu espelho velho. Pés descalços deixam rastros de sangue. As marcas vermelhas no chão, uma ao lado da outra, são o nosso pacto, nossa impressão digital. A prisão mesmo antes do crime.
Não podemos nos permitir isso. Somos livres, você e eu. Temos de ser iguais àquele passarinho no parapeito da janela a nos encarar. Ele vai e vem e nem nota nada. Não percebe o suor dos meus poros a se misturar com o seu. Ocasionalmente nos tornamos um, sem abrir mão da individualidade.
A dualidade de um lado só. Sem cara e coroa. O clichê biológico da espécie. A necessidade com consentimento. Às vezes, sem. Às vezes, tem. O drama. A cama. Os lençóis sujos com o liquido escuro. Sequer bebemos vinho. Deleitamo-nos até o despertar dos curiosos. A vaidade vista como sinal de arrogância. Os simples fitar da inveja ao lado. Calo-me. Dispo-te. Mais uma vez. As mãos agora percorrem de cima para baixo. Chegam ao teu ventre. Misturam-se ao viscoso liquido que jorra em dois tons. Não há nada alheio. É um jogo cínico. Duas mentes de um ato épico. A última vez que te sinto. A última tela que pinto.
terça-feira, 18 de maio de 2010
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Um pobre homem
Não tenho preferências por cor de pele ou cabelo de mulher. Gosto delas, e ponto. De todas; sem distinção. Mas aquela loirinha arrasou meu coração. Tinha o andar leve; pernas finas, mas lindas; o olhar penetrante; seios avantajados; voz de veludo; corpo escultural. Hipnotizava-me a cada fitada. Caía a seus pés.
A beleza nela era algo singular. Toda vez que a via saltavam-me os olhos; sentia um misto de desejo com ternura; de paixão com devoção (não devoção cristã e nem de subserviência). E ela sabia disso. Aproveitava-se, inclusive. Pedia-me tudo; eu fazia mais um pouco. Sem pestanejar. Pode parecer loucura. Devia ser mesmo. De minha parte não havia razão, só emoção; não havia amor próprio, só amor a ela, e em dobro.
É nestas horas que se vê o poder das mulheres, o fascínio que elas podem causar num pobre homem. Sentia-me um pobre homem, de vez em quando: pobre por amá-la tanto; pobre por achar que não suportaria viver sem ela. E realmente, naquele momento, não conseguia. Havia algo de magnético, de astronômico. Quem sabe ela fosse a lua?
Nunca tendei entender o que se passava. Talvez não quisesse. Bastava-me estar ao seu lado; às vezes acordar ao seu lado; às vezes pensar que em algum momento estaria ao seu lado. Nunca fizemos planos. Apenas vivemos os momentos: bons e ruins, é claro. Mas ela me deixou. Foi embora sem sequer dar adeus. Nenhuma explicação, nenhuma divagação, nenhum “eu te amei, mas tive que ir”.
Aquela loirinha ainda povoa minha mente. Penso o que teria sido de mim se ainda estivesse com ela. Imagino filhos loirinhos correndo num quintal florescido; uma casa grande com vista para o mar e nós dois, apaixonados, banhando-nos num oceano qualquer; vivendo de amor, como em alguma história com final feliz e sem dos desprazeres da vida real.
Pensando bem, agora sem ela, com o passar dos anos me tornaria apenas um pobre homem, e velho, muito velho, porque teria amado mais do que deveria. Seria pior do que o mestre Gabriel García Márquez: ficaria sem as grandes obras para a posteridade e sem as memória das putas que nunca tive, mesmo que elas fossem tristes.
A beleza nela era algo singular. Toda vez que a via saltavam-me os olhos; sentia um misto de desejo com ternura; de paixão com devoção (não devoção cristã e nem de subserviência). E ela sabia disso. Aproveitava-se, inclusive. Pedia-me tudo; eu fazia mais um pouco. Sem pestanejar. Pode parecer loucura. Devia ser mesmo. De minha parte não havia razão, só emoção; não havia amor próprio, só amor a ela, e em dobro.
É nestas horas que se vê o poder das mulheres, o fascínio que elas podem causar num pobre homem. Sentia-me um pobre homem, de vez em quando: pobre por amá-la tanto; pobre por achar que não suportaria viver sem ela. E realmente, naquele momento, não conseguia. Havia algo de magnético, de astronômico. Quem sabe ela fosse a lua?
Nunca tendei entender o que se passava. Talvez não quisesse. Bastava-me estar ao seu lado; às vezes acordar ao seu lado; às vezes pensar que em algum momento estaria ao seu lado. Nunca fizemos planos. Apenas vivemos os momentos: bons e ruins, é claro. Mas ela me deixou. Foi embora sem sequer dar adeus. Nenhuma explicação, nenhuma divagação, nenhum “eu te amei, mas tive que ir”.
Aquela loirinha ainda povoa minha mente. Penso o que teria sido de mim se ainda estivesse com ela. Imagino filhos loirinhos correndo num quintal florescido; uma casa grande com vista para o mar e nós dois, apaixonados, banhando-nos num oceano qualquer; vivendo de amor, como em alguma história com final feliz e sem dos desprazeres da vida real.
Pensando bem, agora sem ela, com o passar dos anos me tornaria apenas um pobre homem, e velho, muito velho, porque teria amado mais do que deveria. Seria pior do que o mestre Gabriel García Márquez: ficaria sem as grandes obras para a posteridade e sem as memória das putas que nunca tive, mesmo que elas fossem tristes.
Comida de vermes
O motel velho de beira de estrada dá o aspecto de um lugar onde o desenvolvimento é palavra corrente só em telejornais. Um letreiro informa os valores: R$ 20 o pernoite e R$ 8 por três horas. Final de tarde na cidadezinha de pouco mais de mil habitantes. O quarto de número 12 está fechado. O proprietário – um gordo, de bigode avantajado, calçando botas de cano longo, sem cadarço, e calças velhas - não registrou os últimos hóspedes. Perdeu o livro em que anotava o nome das pessoas.
Dentro do 12 há algo que transpira ares de putrefação. A camareira é mandada para verificar se os hóspedes querem que o quarto seja limpo. Sente o odor apenas ao caminhar pelo corredor. Chega a ficar tonta quando se aproxima da porta. Tenta abri-la com a chave. Não precisa. Está encostada. A luz está queimada. Tem dificuldade de enxergar. Tenta o abajur. Nada. Percebe a sola do sapato grudar-se ao chão a cada passo. Não agüenta ficar mais um segundo. Está com nojo. E medo. Sai para buscar uma lanterna.
A noite chega. Resolve levar o gordo consigo. Ele diz que não pode deixar a recepção. Ela insiste. Ele cede. Leva na boca uma coxa de galinha frita. Os pêlos do bigode brilham de tão engordurados. Devora o pedaço de ave com apenas duas dentadas. Joga o osso fora.
No caminho ela diz ter algo de estranho no 12. Ele afirma realmente não ter visto mais o casal que se hospedara havia horas. Deviam ter saído para visitar as cidades das redondezas e esqueceram de deixar a chave, acredita. Ela acha que não. Continua a suspeitar de que boa coisa não era. Chegam.
O forte cheiro faz embrulhar o estômago do gordo. Ela traz a lanterna em punho. Adentram. Os narizes tapados. Ela ilumina a cama de casal. Vazia. Ilumina o chão. Há vestígios do que parece ser sangue. Ele pega a lanterna. Dirigem-se ao banheiro. Também vazio. Naquele momento, pensa ele, a sensação é pior do que estar num chiqueiro. Algo apodrecera ali. Ele ilumina o criado-mudo. Uma faca com sangue. Pensam em ligar para a polícia. Primeiro preferem vasculhar a pequena cozinha.
Antes, porém, ouvem um barulho. Voltam. Duas pessoas abrem a porta: um homem e uma mulher. Ele coloca luz na cara de ambos. Gritos tomam conta do local. Assustam-se. Parecem ser os hóspedes. Não há certeza. Ele e a camareira estão cara a cara com os “quase” mortos ou “assassinos”. O rapaz e a mulher tentam explicar a situação. Acalmam-se. Ele apenas cortara-se ao tentar desencapar o fio do abajur na tentativa de consertá-lo. Correram para o pronto-socorro, que também é hospital. Tiveram de ficar horas. Mas ainda havia um mistério, pensa o gordo-bigodudo.
Pergunta-lhes sobre o cheiro. O casal também não sabe. Vão à cozinha novamente. É de dali que vem o aroma fétido. Moscas sobrevoam; fazem muito barulho. O gordo está com ânsia; acha que vai vomitar. Prende a respiração. Direciona a luz da lanterna à bancadinha próxima ao fogão de duas bocas. Veem diversos insetos alimentar-se de restos de um frango. Ele vomita. Vai demorar a comer de novo aves e assemelhados.
À frente do motel uma nova placa. Que diz, em letras maiores até que o preço da estadia: - Proibido deixar comida no quarto.
Conto escrito em junho de 2008.
Dentro do 12 há algo que transpira ares de putrefação. A camareira é mandada para verificar se os hóspedes querem que o quarto seja limpo. Sente o odor apenas ao caminhar pelo corredor. Chega a ficar tonta quando se aproxima da porta. Tenta abri-la com a chave. Não precisa. Está encostada. A luz está queimada. Tem dificuldade de enxergar. Tenta o abajur. Nada. Percebe a sola do sapato grudar-se ao chão a cada passo. Não agüenta ficar mais um segundo. Está com nojo. E medo. Sai para buscar uma lanterna.
A noite chega. Resolve levar o gordo consigo. Ele diz que não pode deixar a recepção. Ela insiste. Ele cede. Leva na boca uma coxa de galinha frita. Os pêlos do bigode brilham de tão engordurados. Devora o pedaço de ave com apenas duas dentadas. Joga o osso fora.
No caminho ela diz ter algo de estranho no 12. Ele afirma realmente não ter visto mais o casal que se hospedara havia horas. Deviam ter saído para visitar as cidades das redondezas e esqueceram de deixar a chave, acredita. Ela acha que não. Continua a suspeitar de que boa coisa não era. Chegam.
O forte cheiro faz embrulhar o estômago do gordo. Ela traz a lanterna em punho. Adentram. Os narizes tapados. Ela ilumina a cama de casal. Vazia. Ilumina o chão. Há vestígios do que parece ser sangue. Ele pega a lanterna. Dirigem-se ao banheiro. Também vazio. Naquele momento, pensa ele, a sensação é pior do que estar num chiqueiro. Algo apodrecera ali. Ele ilumina o criado-mudo. Uma faca com sangue. Pensam em ligar para a polícia. Primeiro preferem vasculhar a pequena cozinha.
Antes, porém, ouvem um barulho. Voltam. Duas pessoas abrem a porta: um homem e uma mulher. Ele coloca luz na cara de ambos. Gritos tomam conta do local. Assustam-se. Parecem ser os hóspedes. Não há certeza. Ele e a camareira estão cara a cara com os “quase” mortos ou “assassinos”. O rapaz e a mulher tentam explicar a situação. Acalmam-se. Ele apenas cortara-se ao tentar desencapar o fio do abajur na tentativa de consertá-lo. Correram para o pronto-socorro, que também é hospital. Tiveram de ficar horas. Mas ainda havia um mistério, pensa o gordo-bigodudo.
Pergunta-lhes sobre o cheiro. O casal também não sabe. Vão à cozinha novamente. É de dali que vem o aroma fétido. Moscas sobrevoam; fazem muito barulho. O gordo está com ânsia; acha que vai vomitar. Prende a respiração. Direciona a luz da lanterna à bancadinha próxima ao fogão de duas bocas. Veem diversos insetos alimentar-se de restos de um frango. Ele vomita. Vai demorar a comer de novo aves e assemelhados.
À frente do motel uma nova placa. Que diz, em letras maiores até que o preço da estadia: - Proibido deixar comida no quarto.
Conto escrito em junho de 2008.
Retrato de um forasteiro
Um forasteiro que visitasse Bagé há dez anos, no ano da graça de 1998, com certeza se faria algumas perguntas sobre a cidade: Onde está a cidadania das pessoas? Como as crianças estudam em escolas tão precárias? Como as pessoas vivem com esgoto a céu aberto e sem iluminação? Por que existe tanta gente passando fome? Por que a cidade está tão suja? Isso sem falar em outras dezenas de questionamentos. Provavelmente, este mesmo forasteiro, se quisesse aprofundar sua visão, procuraria a voz do povo. Indignado com o descaso, ele ouviria que a cidade havia sido esquecida há tempos por seus governantes.
Ele iria embora com a idéia de nunca mais voltar. Mas dez anos depois, no entanto, em 2008, o forasteiro, ainda com aquela imagem povoando sua mente, ao lembrar-se daquela cidade relegada à chaga, resolveria visitá-la novamente para ver se as coisas haviam mudado. Porque a recordação de um povo esquecido, jogado à própria sorte, ainda lhe inquietaria.
Ao chegar de novo ao que havia considerado na época uma pintura de Modigliani sobre o brutal retrato da Primeira Grande Guerra, ele se surpreenderia. Teria, à primeira vista, a impressão de não se tratar do mesmo local onde estivera uma década atrás.
No mesmo trajeto que fizera, ele depararia com outra realidade: a cidade ficara alegre, colorida, iluminada, tinha escolas novas, que davam aos alunos duas refeições por dia, havia postos de saúde novos, prédios históricos reformados, ruas asfaltadas, programas sociais, educacionais, culturais e de saúde. Tudo lhe faria saltar os olhos.
Espantado, não acreditaria: praças novas eram utilizadas por famílias inteiras; programas davam oportunidade a que idosos praticassem esportes; os agricultores do interior não precisavam mais abandonar o campo - eles haviam recebido casas e condições dignas para permanecer trabalhando onde tinham vocação -; milhares de jovens cursavam uma universidade pública e outros se qualificavam em cursos técnicos; mulheres também deixavam de ser apenas “do lar” e passavam a chefiar suas famílias e a obter renda; milhares de pessoas recebiam dignamente e de direito uma renda básica mensal; centenas de famílias conseguiam comprar casa própria; a população ganhava atendimentos de urgência e emergência em suas casas.
Cético sobre o que sua visão lhe proporcionaria, ele procuraria um cidadão qualquer andando pela cidade, a quem perguntaria: O que houve aqui? Quem, por milagre, havia conseguido fazer isso? O cidadão lhe responderia, sem tergiversar: - Foi o PT. E o senhor não viu nada, ainda têm mais - concluiria o cidadão.
Texto escrito e publicado no jornal do Partido dos Trabalhadores em março de 2008.
Ele iria embora com a idéia de nunca mais voltar. Mas dez anos depois, no entanto, em 2008, o forasteiro, ainda com aquela imagem povoando sua mente, ao lembrar-se daquela cidade relegada à chaga, resolveria visitá-la novamente para ver se as coisas haviam mudado. Porque a recordação de um povo esquecido, jogado à própria sorte, ainda lhe inquietaria.
Ao chegar de novo ao que havia considerado na época uma pintura de Modigliani sobre o brutal retrato da Primeira Grande Guerra, ele se surpreenderia. Teria, à primeira vista, a impressão de não se tratar do mesmo local onde estivera uma década atrás.
No mesmo trajeto que fizera, ele depararia com outra realidade: a cidade ficara alegre, colorida, iluminada, tinha escolas novas, que davam aos alunos duas refeições por dia, havia postos de saúde novos, prédios históricos reformados, ruas asfaltadas, programas sociais, educacionais, culturais e de saúde. Tudo lhe faria saltar os olhos.
Espantado, não acreditaria: praças novas eram utilizadas por famílias inteiras; programas davam oportunidade a que idosos praticassem esportes; os agricultores do interior não precisavam mais abandonar o campo - eles haviam recebido casas e condições dignas para permanecer trabalhando onde tinham vocação -; milhares de jovens cursavam uma universidade pública e outros se qualificavam em cursos técnicos; mulheres também deixavam de ser apenas “do lar” e passavam a chefiar suas famílias e a obter renda; milhares de pessoas recebiam dignamente e de direito uma renda básica mensal; centenas de famílias conseguiam comprar casa própria; a população ganhava atendimentos de urgência e emergência em suas casas.
Cético sobre o que sua visão lhe proporcionaria, ele procuraria um cidadão qualquer andando pela cidade, a quem perguntaria: O que houve aqui? Quem, por milagre, havia conseguido fazer isso? O cidadão lhe responderia, sem tergiversar: - Foi o PT. E o senhor não viu nada, ainda têm mais - concluiria o cidadão.
Texto escrito e publicado no jornal do Partido dos Trabalhadores em março de 2008.
O cinema, a pirataria e suas nuances
Como sou fã de filmes (de preferência não-hollywoodianos) estava eu a baixar da internet - pirata, é claro – o comentado Meu nome não é Johnny. Esperei a tarde toda na ânsia de ter o que fazer de noite, em Bagé, “num belo dia de janeiro e de calor”.
Umas seis horas depois, qual foi minha surpresa: em vez do filme, um show do Calypso ao vivo, sei lá onde no país. Que m. , disse, em voz alta. Mas aprendi uma coisa com este episódio. Não, não pense que foi que pirataria é crime, isso eu já sabia. Percebi, sim, que devo ver parte do filme antes de baixá-lo todo. Além do que não me considero um pirata. Não vendo os filmes que baixo; no máximo, os empresto aos amigos. Ou seja, não ganho dinheiro com isso. Pratico o amor à sétima arte. Digamos que eu promova a minha boa cultura e de alguns de meus semelhantes.
Tem gente que se diz amante do cinema – ouço isso aos montes – sem nunca ter se deleitado com Bergman, Antonioni, Pasolini, Bertolucci, Godard, Oliver Stone, Tarantino, Coppola, Sergei Eisenstein, Almodóvar e etc. Mas tudo bem, não os recrimino. Reconheço que a força da mídia hollywoodiana bate qualquer outra do mundo no que se refere à divulgação de suas produções.
As pessoas, no final das contas, se acostumaram a ver tudo mastigadinho, com roteiros estritamente lineares, isto é, o corriqueiro início, meio e fim, tal qual o conhecemos. Também não raro escuto um “não gostei daquele filme, não entendi nada”.
Claro, quando a história é boa, a filmagem, edição e outras coisas são pouco convencionais – casos destes diretores que citei e tantos outros – a obra, para eles, torna-se chata. Pessoal, filme bom é filme que se vê várias vezes, filme em que é preciso usar a cuca, nem que pra isso seja necessário ouvir as explicações do diretor ou mesmo ler algo sobre a história. Fugi um pouco da pirataria pra fazer esse adendo. Volto a ela, portanto.
Eu recorro à pirataria pelo simples fato de não conseguir o que quero aqui na cidade, a não ser por estes meios. Vá numa locadora e peça, por exemplo, 8 e meio, um dos maiores clássicos do Fellini. Cem por cento a resposta será: “Não tem”. Isso se tiver sorte, porque provavelmente o atendente nem saiba quem é Federico Fellini. Mais do que apenas uma crítica a quem trabalha no ramo, trata-se de uma cultura mundial e, especialmente, local.
Como disse o grande Carlos Gerbase, cineasta gaúcho, quando da morte ano passado de dois mestres: “O cinema é entretenimento, mas com Bergman e Antonioni é arte”. E tenho dito!
Texto escrito em janeiro de 2008.
Umas seis horas depois, qual foi minha surpresa: em vez do filme, um show do Calypso ao vivo, sei lá onde no país. Que m. , disse, em voz alta. Mas aprendi uma coisa com este episódio. Não, não pense que foi que pirataria é crime, isso eu já sabia. Percebi, sim, que devo ver parte do filme antes de baixá-lo todo. Além do que não me considero um pirata. Não vendo os filmes que baixo; no máximo, os empresto aos amigos. Ou seja, não ganho dinheiro com isso. Pratico o amor à sétima arte. Digamos que eu promova a minha boa cultura e de alguns de meus semelhantes.
Tem gente que se diz amante do cinema – ouço isso aos montes – sem nunca ter se deleitado com Bergman, Antonioni, Pasolini, Bertolucci, Godard, Oliver Stone, Tarantino, Coppola, Sergei Eisenstein, Almodóvar e etc. Mas tudo bem, não os recrimino. Reconheço que a força da mídia hollywoodiana bate qualquer outra do mundo no que se refere à divulgação de suas produções.
As pessoas, no final das contas, se acostumaram a ver tudo mastigadinho, com roteiros estritamente lineares, isto é, o corriqueiro início, meio e fim, tal qual o conhecemos. Também não raro escuto um “não gostei daquele filme, não entendi nada”.
Claro, quando a história é boa, a filmagem, edição e outras coisas são pouco convencionais – casos destes diretores que citei e tantos outros – a obra, para eles, torna-se chata. Pessoal, filme bom é filme que se vê várias vezes, filme em que é preciso usar a cuca, nem que pra isso seja necessário ouvir as explicações do diretor ou mesmo ler algo sobre a história. Fugi um pouco da pirataria pra fazer esse adendo. Volto a ela, portanto.
Eu recorro à pirataria pelo simples fato de não conseguir o que quero aqui na cidade, a não ser por estes meios. Vá numa locadora e peça, por exemplo, 8 e meio, um dos maiores clássicos do Fellini. Cem por cento a resposta será: “Não tem”. Isso se tiver sorte, porque provavelmente o atendente nem saiba quem é Federico Fellini. Mais do que apenas uma crítica a quem trabalha no ramo, trata-se de uma cultura mundial e, especialmente, local.
Como disse o grande Carlos Gerbase, cineasta gaúcho, quando da morte ano passado de dois mestres: “O cinema é entretenimento, mas com Bergman e Antonioni é arte”. E tenho dito!
Texto escrito em janeiro de 2008.
Loucuras de um gênio
Terminei de ler, pela terceira vez, a biografia sobre o Tim Maia. Tal como Noites Tropicais, o livro é assinado magistralmente por Nelson Motta. Eu sempre fui fã do Tim Maia. Agora, então, virei de carteirinha.
Com todas as suas excentricidades, ele é exemplo claro de como os gênios morrem cedo: tinha 55 anos quando morreu. Mais do que Janis Joplin, John Lennon, Jimi Hendrix e Jim Morrison, Charlie Parker. Quem não lembra do clássico: “Mais retorno, mais eco, mais grave, mas side, mais agudo. Mais tudo”. Uma de suas marcas registradas.
A definição da vida de Tim dada por Motta deixa claro: que ficcionista seria capaz de criar um personagem como Tim Maia? E quem acreditaria? Isso é verdade, inegavelmente. Tim foi, nas palavras do escritor, o ser humano mais livre do mundo. Obedecia apenas a sua mãe, dona Maria Imaculada, a quem pedia benção todas as vezes em que tinha de viajar de avião, acompanhado, é obvio, de algumas garrafinhas de uísque 12 anos, seu preferido.
Conhecido por não aparecer em seus shows, ele brincava: “Tim Maia, o artista que mais comparece aos seus shows”, dizia, seguido de uma gargalhada inconfundível.
Talvez poucos saibam como surgiu o rótulo de síndico, popularizado na canção de Jorge Benjor, seu amigo de infância. Tim estava no auge da carreira e comprou um apartamento num bairro nobre do Rio de Janeiro.
Muito pesado, no alto de seus cento e tantos quilos, ele tinha medo de chegar até a sacada para ver o mar. Resolveu, então, trocá-la de lugar. Nesse mesmo local, Tim recém havia se mudado e percebeu que três caras rondavam o prédio. Chamou um de seus amigos, que lhe trouxe uma arma, e Tim começou a dar tiros pra todos os lugares. Os supostos meliantes foram embora.
Noutra oportunidade, ainda temendo por sua segurança e armado, viu pela sacada dois rapazes subindo numa escada. Não teve dúvidas: crivou-os de bala. Mais tarde descobriu que se tratava de funcionários da Telerj que faziam reparos na rede de telefonia. Final das contas: tiraram-lhe a arma, antes que ele e outras pessoas se ferissem. Daí o porquê do trecho da música: “Tira essa escada daí, eu vou chamar o síndico, Tim Maia”.
Outra história interessante – todas elas são, o livro todo é – aconteceu no verão de 1987. Com o Rio de Janeiro vivendo umas das maiores secas de maconha, Tim recebe uma ótima notícia: o cargueiro Solana Star, vindo da Tailândia, tinha encalhado em Angra dos Reis e liberado no mar 14 toneladas de maconha prensada, em latas de dois quilos.
As primeiras, logo na manhã, foram recolhidas por surfistas e pescadores do Arpoador. A notícia se espalhou rapidamente. A maconha que tinha praça era ruim e cara, e a da lata era a melhor que tinha já fumara. E muito mais barata. Rapidamente, Tim enviou um secretário com a missão de “comprar todas que tivesse”. Teve de se contentar com apenas seis quilos do produto. E comprou um binóculo.
Na varanda do apartamento, passava um bom tempo observando o mar da Barra e, caso visse alguma coisa brilhando, começava a gritar e seu ajudante, Zé Carlos, um dos muitos que teve, era enviado imediatamente à praia. Apesar da vigilância, nenhuma lata foi encontrada.
Estes são apenas alguns exemplos de sua vida regada a muito excesso, do qual Tim foi o rei, com todos os entendimentos que essa palavra possa suscitar: de talento, de peso, de genialidade, de drogas, de sexo, de bondade, de generosidade, de explosão e outras tantas mais.
No dia 15 de março deste ano (2008, quando o texto foi escrito), exatamente às 13h03, fará dez anos que o gordinho mais simpático da Tijuca se foi. Mas suas canções vibrantes, com sua voz de veludo, que estremecia onde entrava, continuarão a animar festas, bailes e casamentos de muitas gerações Brasil afora. E, como diz Caetano Veloso, “quero que tudo saia, como som de Tim Maia”.
Texto escrito e publicado no Jornal Minuano, de Bagé, em janeiro de 2008.
Com todas as suas excentricidades, ele é exemplo claro de como os gênios morrem cedo: tinha 55 anos quando morreu. Mais do que Janis Joplin, John Lennon, Jimi Hendrix e Jim Morrison, Charlie Parker. Quem não lembra do clássico: “Mais retorno, mais eco, mais grave, mas side, mais agudo. Mais tudo”. Uma de suas marcas registradas.
A definição da vida de Tim dada por Motta deixa claro: que ficcionista seria capaz de criar um personagem como Tim Maia? E quem acreditaria? Isso é verdade, inegavelmente. Tim foi, nas palavras do escritor, o ser humano mais livre do mundo. Obedecia apenas a sua mãe, dona Maria Imaculada, a quem pedia benção todas as vezes em que tinha de viajar de avião, acompanhado, é obvio, de algumas garrafinhas de uísque 12 anos, seu preferido.
Conhecido por não aparecer em seus shows, ele brincava: “Tim Maia, o artista que mais comparece aos seus shows”, dizia, seguido de uma gargalhada inconfundível.
Talvez poucos saibam como surgiu o rótulo de síndico, popularizado na canção de Jorge Benjor, seu amigo de infância. Tim estava no auge da carreira e comprou um apartamento num bairro nobre do Rio de Janeiro.
Muito pesado, no alto de seus cento e tantos quilos, ele tinha medo de chegar até a sacada para ver o mar. Resolveu, então, trocá-la de lugar. Nesse mesmo local, Tim recém havia se mudado e percebeu que três caras rondavam o prédio. Chamou um de seus amigos, que lhe trouxe uma arma, e Tim começou a dar tiros pra todos os lugares. Os supostos meliantes foram embora.
Noutra oportunidade, ainda temendo por sua segurança e armado, viu pela sacada dois rapazes subindo numa escada. Não teve dúvidas: crivou-os de bala. Mais tarde descobriu que se tratava de funcionários da Telerj que faziam reparos na rede de telefonia. Final das contas: tiraram-lhe a arma, antes que ele e outras pessoas se ferissem. Daí o porquê do trecho da música: “Tira essa escada daí, eu vou chamar o síndico, Tim Maia”.
Outra história interessante – todas elas são, o livro todo é – aconteceu no verão de 1987. Com o Rio de Janeiro vivendo umas das maiores secas de maconha, Tim recebe uma ótima notícia: o cargueiro Solana Star, vindo da Tailândia, tinha encalhado em Angra dos Reis e liberado no mar 14 toneladas de maconha prensada, em latas de dois quilos.
As primeiras, logo na manhã, foram recolhidas por surfistas e pescadores do Arpoador. A notícia se espalhou rapidamente. A maconha que tinha praça era ruim e cara, e a da lata era a melhor que tinha já fumara. E muito mais barata. Rapidamente, Tim enviou um secretário com a missão de “comprar todas que tivesse”. Teve de se contentar com apenas seis quilos do produto. E comprou um binóculo.
Na varanda do apartamento, passava um bom tempo observando o mar da Barra e, caso visse alguma coisa brilhando, começava a gritar e seu ajudante, Zé Carlos, um dos muitos que teve, era enviado imediatamente à praia. Apesar da vigilância, nenhuma lata foi encontrada.
Estes são apenas alguns exemplos de sua vida regada a muito excesso, do qual Tim foi o rei, com todos os entendimentos que essa palavra possa suscitar: de talento, de peso, de genialidade, de drogas, de sexo, de bondade, de generosidade, de explosão e outras tantas mais.
No dia 15 de março deste ano (2008, quando o texto foi escrito), exatamente às 13h03, fará dez anos que o gordinho mais simpático da Tijuca se foi. Mas suas canções vibrantes, com sua voz de veludo, que estremecia onde entrava, continuarão a animar festas, bailes e casamentos de muitas gerações Brasil afora. E, como diz Caetano Veloso, “quero que tudo saia, como som de Tim Maia”.
Texto escrito e publicado no Jornal Minuano, de Bagé, em janeiro de 2008.
Foi a vela, não eu!
Você, caro leitor, já foi acusado injustamente de ter posto fogo em algum lugar com uma vela de aniversário? Pois é. Eu já fui. E lembro bem disso. Devia ter uns 10 anos. Morava no Scyla Médici, conjunto habitacional de oito prédios e centenas de apartamentos quase ao lado no estádio do Guarany Futebol Clube.
Era maio. Inicio da tarde do dia 8 ou 9. Meu irmão, um dia ou dois antes, fizera dois anos de idade. Com direito a festinha no salão do complexo e tudo mais. Aquela época era comum reunir vizinhos e familiares e se empanturrar com doces, salgados, bolo e dançar muita lambada. Isso mesmo, lambada: cito Beto Barbosa, Kaoma e outros artistas com nomes estranhos que, não se sabe como, trouxeram esse ritmo dos confins da Amazônia. Mas voltemos à vela. Ah, a maldita vela!
Em casa, brincava eu com a tal vela, ainda meio suja de bolo, que sobrara do niver do mano. Ascendia, assoprava e apagava a vela; ascendia, assoprava e apagava a vela. Coisa de criança. Mas não era um santo, definitivamente. Mas tinha dez anos, convenhamos. Como todo piá, logo, logo cansei de brincar com a vela. Tinha outras mil coisas pra fazer naquele dia.
Pela ultima vez, ascendi, assoprei e apaguei a vela. Saí do quarto. Antes, porém, bati na vela sem querer. Sem notar, ela caiu acesa atrás de uma cômoda que dividia minha cama do berço do meu irmão pequeno – e único - e pegou fogo na cortina, espalhando-se em seguida por todo o quarto. Meu primo quem descobriu as labaredas. Fora me procurar em casa. Quando perguntou a minha mãe onde eu estava, disse ela: “Acho que está no quarto”. Ele abriu a porta e deparou com o fogaréu. Calma. Meu irmão não estava no berço. Até hoje minha mãe insiste em dizer que sim. Mas ele não estava, juro que não.
Sem saber de nada, fui fazer o que tinha de fazer. Era um adolescente atarefado: jogava futebol, brincava de pega-pega, batia em alguns garotos, paquerava as meninas. Mais tarde, ainda perto de casa, ouvi gritos. Vizinhos corriam em direção ao prédio em que morava. “Fogo, fogo”, gritavam. Fogo, pensei eu!. De onde? Tenho de ir lá ver. Ao chegar próximo do prédio, constatei que o fogo vinha de minha janela. “Como diabos poderia estar pegando fogo no quarto e por quê?.
Ocorreu-me, naquele exato momento, lembrar da vela, com a qual brincara poucas horas antes. Só podia ser por causa dela o fogo. Lógico. Entrei em pânico. Temia que, como de costume, a responsabilidade caísse sobre os meus ombros. Mais especificamente sobre ombros, pernas, braços: afinal a mãe sempre me batia quando eu fazia algo de errado. E quando não, também. A fama de mal feitor me perseguia. Sem méritos, pelo que lembro, mas perseguia.
Prevendo o que me esperava, corri para o primeiro edifício do condomínio, que ficava bem longe do meu. Subi quatro lances de escada e escondi-me no último andar. Subi a pé; sequer havia elevador. Fiquei lá por mais de uma hora. Sorte que não subiu ninguém naquele andar enquanto eu estava. Pela minha cabeça, passavam-se várias coisas: Como será que vou apanhar? Pelo grau do acontecido, minha mãe vai de me bater de chinelo, tamanco ou com um pedaço de pau? Restava esperar. Deixei calmar a poeira e desci para ver a repercussão. Estava assustado. Mais do que perder tudo do quarto, o que parecia ser óbvio (havia bombeiros, gente atirando água de balde e o escambal), amedrontrava-me a represália. Na verdade, a adiava; ela era inevitável àquela altura.
Quando descia em direção ao meu prédio, já desolado, avistei de longe pessoas a apontar em minha direção: “Lá está ele, lá esta ele”, diziam. É o meu fim, pensei... Tudo resolvido, fogo apagado, susto passado, cheguei em casa. A desculpa na ponta da língua, disse, sem tergiversar: “Não foi eu, mãe, foi a vela”. Ela me abraçou. E chorou...
Texto publicado no Jornal Minuano, de Bagé, em janeiro de 2008.
Era maio. Inicio da tarde do dia 8 ou 9. Meu irmão, um dia ou dois antes, fizera dois anos de idade. Com direito a festinha no salão do complexo e tudo mais. Aquela época era comum reunir vizinhos e familiares e se empanturrar com doces, salgados, bolo e dançar muita lambada. Isso mesmo, lambada: cito Beto Barbosa, Kaoma e outros artistas com nomes estranhos que, não se sabe como, trouxeram esse ritmo dos confins da Amazônia. Mas voltemos à vela. Ah, a maldita vela!
Em casa, brincava eu com a tal vela, ainda meio suja de bolo, que sobrara do niver do mano. Ascendia, assoprava e apagava a vela; ascendia, assoprava e apagava a vela. Coisa de criança. Mas não era um santo, definitivamente. Mas tinha dez anos, convenhamos. Como todo piá, logo, logo cansei de brincar com a vela. Tinha outras mil coisas pra fazer naquele dia.
Pela ultima vez, ascendi, assoprei e apaguei a vela. Saí do quarto. Antes, porém, bati na vela sem querer. Sem notar, ela caiu acesa atrás de uma cômoda que dividia minha cama do berço do meu irmão pequeno – e único - e pegou fogo na cortina, espalhando-se em seguida por todo o quarto. Meu primo quem descobriu as labaredas. Fora me procurar em casa. Quando perguntou a minha mãe onde eu estava, disse ela: “Acho que está no quarto”. Ele abriu a porta e deparou com o fogaréu. Calma. Meu irmão não estava no berço. Até hoje minha mãe insiste em dizer que sim. Mas ele não estava, juro que não.
Sem saber de nada, fui fazer o que tinha de fazer. Era um adolescente atarefado: jogava futebol, brincava de pega-pega, batia em alguns garotos, paquerava as meninas. Mais tarde, ainda perto de casa, ouvi gritos. Vizinhos corriam em direção ao prédio em que morava. “Fogo, fogo”, gritavam. Fogo, pensei eu!. De onde? Tenho de ir lá ver. Ao chegar próximo do prédio, constatei que o fogo vinha de minha janela. “Como diabos poderia estar pegando fogo no quarto e por quê?.
Ocorreu-me, naquele exato momento, lembrar da vela, com a qual brincara poucas horas antes. Só podia ser por causa dela o fogo. Lógico. Entrei em pânico. Temia que, como de costume, a responsabilidade caísse sobre os meus ombros. Mais especificamente sobre ombros, pernas, braços: afinal a mãe sempre me batia quando eu fazia algo de errado. E quando não, também. A fama de mal feitor me perseguia. Sem méritos, pelo que lembro, mas perseguia.
Prevendo o que me esperava, corri para o primeiro edifício do condomínio, que ficava bem longe do meu. Subi quatro lances de escada e escondi-me no último andar. Subi a pé; sequer havia elevador. Fiquei lá por mais de uma hora. Sorte que não subiu ninguém naquele andar enquanto eu estava. Pela minha cabeça, passavam-se várias coisas: Como será que vou apanhar? Pelo grau do acontecido, minha mãe vai de me bater de chinelo, tamanco ou com um pedaço de pau? Restava esperar. Deixei calmar a poeira e desci para ver a repercussão. Estava assustado. Mais do que perder tudo do quarto, o que parecia ser óbvio (havia bombeiros, gente atirando água de balde e o escambal), amedrontrava-me a represália. Na verdade, a adiava; ela era inevitável àquela altura.
Quando descia em direção ao meu prédio, já desolado, avistei de longe pessoas a apontar em minha direção: “Lá está ele, lá esta ele”, diziam. É o meu fim, pensei... Tudo resolvido, fogo apagado, susto passado, cheguei em casa. A desculpa na ponta da língua, disse, sem tergiversar: “Não foi eu, mãe, foi a vela”. Ela me abraçou. E chorou...
Texto publicado no Jornal Minuano, de Bagé, em janeiro de 2008.
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